quinta-feira, 5 de abril de 2018

Hera



Achas que já é primavera?
Achas que já desabrocham as flores?

Sou uma velha hera
Que viu a morte dos amores
E não foi Hera.
Refugiu-me nas margens dessa ribeira
Que tu então já destruíste
descubro que há lugares
Que são onde eu quiser.
E aí, tu mísero ignóbil, não conseguiste
Macular esse eterno terno lugar.

Há lugares que são onde eu quiser
E alguns que eram e já não são
Continuam eternamente a ser
E eu, posso nascer
As vezes que me apetecer
Hera.
Gosto da hera verde.
Não se pode ser para sempre flor
Todas as estações são felizes
Às vezes é preciso ser-se fruto e amadurecer
E as vezes semente depois de se morrer

Há motivos para soprares, ó vento?
Ainda que sopres sou hera.

Será já primavera? E as flores,
Já abriram?
E os amores, já floriram
Os anjos, já pariram
Sons nas suas trompetes?
Eu sou hera, verde
Era
E não Hera.
Agora verde vestes.




quarta-feira, 14 de março de 2018

Como teria sido a vida se a tivesse escrito diferente?



Como teria sido a vida se tivéssemos tido coragem de a escrever de forma diferente?
Hoje não tenho forças para amar mais que a conta
Hoje a alma retirou-se para não se contagiar pelo corpo doente

Não quero forçar a alma a um exercício extramundano
Se não tenho auxilio da mente
E a minha hoje repousa num corpo frágil e doente
Valha-me o levofloxacino, a levofloxacina ou ácido clavulânico.

Se ao menos eu estivesse forte
Ou a força cuidasse de mim
Forte, só sou… se não estiver assim!

E se assim não estiver
Também posso ainda ser
Basta dar um tempo e recolher
E amanhã… amanhecer.

E tu meu amor…
Não sei que te dizer
Como teria sido vida que não tivemos que viver

Mas sei que a minha parte está feita
E a tua fizeste como quiseste fazer

Não tenho na mão receita
Epifania ou salvação
Revelaste sempre alguma afeição
para consultar nigromante e adivinhante por vocação
Como se decidir não fosse a tua devoção
Mas hoje ainda não é ainda o dia dessa convocação
tenhamos em privança e num dia de verão.
A Lúcia












quinta-feira, 1 de março de 2018

Um poema, encravado



Tinha aqui um poema, encravado na alma a fazer comichão
Não tive outra opção, se não
Escreve-lo em vez de o arrancar.
Peguei em tinta e pluma
E de nota uma a uma
Pus-me ao piano a teclar

Somos feitos de papel meu amor
Papel seda a amarelar
Somos feitos de papel que pode escurecer e enrugar

Mas eu gosto do meu papel
Do que vim ao Mundo interpretar
É um papel só meu, não o que me quiseram dar

Vi-te meu amigo,
De sorriso rasgado sincero
Também era o meu para te cumprimentar

Somos feitos de amor meu papel
Somos feitos de amor que não deve dobrar
Somos feitos de matéria que se transforma ao nevar

Somos feitos de papel
Que ao chover se pode molhar


Lúcia